Juntos há oito anos, o casal Enio Oliveira, 48, e Rosemeire Patussi, 43, vivem há quatro anos uma aventura sobre rodas.  Os dois viajam juntos pelo Brasil à fora em um motorhome - uma espécie de casa sobre rodas - juntos com a companheira Milla, a pequena poodle que acompanha o casal desde antes das aventuras começarem.
 
Na casa, onde não se pode entrar calçado, a tristeza e a negatividade também não são aceitas. Os dois exigem de si mesmos, sempre arranjar um motivo pra sorrir, e de alguma maneira enxergar o lado bom das coisas, e comentam que o desafio é maior por contas das discussões que são normais em qualquer casal. Mas os dois fazem questão de deixar claro: o orgulho não tem vez, até quem está errado pode pedir desculpas também.
 
A idéia de morarem em uma casa sobre rodas surgiu da necessidade de Meire, como é chamada pelos amigos, ter sempre alguém para monitorá-la. Ela tem duas deficiências; Paralisia cerebral e mioclonia que causam movimentos involuntários, o que faz, também, que o motorhome seja todo adequado para o seu conforto e segurança. 
 
As necessidades de Meire juntaram-se com a vontade que os dois sempre tiveram de viajar e conhecer todo o Brasil. Eles contam que a escolha das cidades nunca segue um mesmo parâmetro, vai do improviso mesmo, as vezes uma pequena parada para compras e reabastecer a dispensa já se alonga em uma semana ou mais. Outras vezes aonde pretendiam ficar mais de dois dias não ficam mais que uma noite. Cada cidade tem a sua particularidade. O casal que já passou por 23 estados brasileiros, já esteve por mais de mil cidades, segundo eles mesmos e cada uma delas marcou os dois de uma maneira diferente.
 
Tem cidade que é daquelas bem pacatas, e ainda guardam os costumes antigos, como meninas na pré-adolescência que ainda brincam de “passar anel” e de bonecas. Cidades que marcam pela excelente gestão da prefeitura, onde nem mais os fios são vistos passando de poste em poste. Mas tem também aquelas que marcam, de uma maneira geral, negativamente. Meire conta que se incomodou muito em uma cidade onde o machismo e a desvalorização da mulher eram explícitos, o que levou o casal a não ficar mais que alguns dias no lugar.
 
Enio diz que nesses quase cinco anos de estrada já aprendeu bem a escolher os lugares onde estacionar, sempre em locais aonde haja muito fluxo de pessoas, para que possam expor os seus trabalhos. Ele que já foi representante de vendas, atualmente trabalha como artesão confeccionando luminárias a partir de tubos de PVC. Meire lançou o livro “Uma vida com obstáculos vencidos” em 2013 e hoje ajuda na renda do casal com as vendas do seu titulo.
 
Para surpresa do casal, o livro de Meire está disponível na biblioteca municipal de Aquidauana e na Secretaria de Cultura da cidade. Ela diz que o livro foi lançado a través de um programa do Estado de Mato Grosso do Sul, e que foi solicitado a escritora um numero ‘x’ de exemplares, que ela indagou o motivo, e recebeu como resposta que o livro seria disponibilizado em todo o estado. Desacreditada da história Meire conta que ficou muito emocionada quando viu seu livro na biblioteca de outra cidade. “É muito bom ver o seu trabalho reconhecido, e até em outras cidades”, comenta a ex-nutricionista, que já esta escrevendo mais um livro.
 
Paralelo ao primeiro, que é de auto-ajuda, o próximo titulo terá como tema os relacionamentos vividos por Rosemeire, focando nas situações de preconceito e rejeição que já viveu. A sempre sorridente Meire perde um pouco do brilho nos olhos ao comentar alguns desses episódios: “Imagina como o chão saiu dos meus pés quando um dos rapazes me falou que eu seria muita responsabilidade para ele!”. Mas o livro não vai se prender apenas ao campo amoroso vai tratar também das relações pessoais que ela já viveu, ou vive até hoje.
 
Para Meire o que mais a entristece é quando vai ser atendida em algum lugar e as pessoas não perguntam o que ela deseja, sempre tentam falar com quem a acompanha, como se esperasse que, na maioria das vezes, Enio desse as respostas, mas para isso ela já bolou uma maneira de responder a altura, e ao mesmo tempo conscientizar as pessoas. Nessas situações o marido, ou qualquer outra pessoa que estiver com ela, ou, não fala nada, ou solicita que a pessoa repita a pergunta, mas se dirigindo a maior interessada na ocasião, ela mesma.
 
Rosemeire tira forças para continuar escrevendo os seus livros, para manter sempre o sorriso no rosto e uma atitude positiva no dia-a-dia, das pessoas que passam por sua vida, e tem as suas próprias vidas transformadas pelo o que ela conta do que já passou.
 
Questionados sobre os perigos de parar o Motorhome em lugares públicos, os dois evidenciam a sua fé e respondem que aqui só se colhe o que se planta, e que por sempre procurarem transmitir coisas positivas, confiam na nuvem de bondade que os cerca. A fé católica do casal não foi posta de lado por conta das muitas viagens. Em todas as cidades em que param, a missa é seu compromisso primordial, pelo menos uma vez na semana.
 
O casal tem uma filosofia: “Você só pode se aventurar no terreno do vizinho, quando conhecer bem o seu.” Por isso que as idas para outros países só acontecerão depois que completarem o tour pelo próprio Brasil, e eles esperam que isso ocorra logo, no máximo em cinco ou seis anos. Enio conta que o que ele menos deseja passar na vida é alguém perguntar sobre um local turístico do Brasil, e ele não souber responder, igual fez quando encontrou com um boliviano em terras brasileiras. Na ocasião ele perguntou ao gringo sobre as Salinas Grandes, ou deserto de sal localizado em território da Bolívia, e o turista não soube responder, alegando que nunca tinha ido visitar.
 
Depois de Aquidauana os dois ainda não decidiram para onde vão, mas vão sempre levando sua alegria e ensinamentos por onde passarem.

Fonte: Pedro Neto


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