Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, 94 anos, faleceu em Campo Grande em decorrência de pontadas de pneumonia. Seu corpo será velado hoje à partir das 14:00 na Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição, e o sepultamento será no mesmo dia as 17h30 no cemitério municipal
.
Dª Lourdes Fragelli teve grande importância no contexto político dos dois estados (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) durante décadas, tendo acompanhado o marido, José Fragelli(in memorian) , em toda a longa e exitosa trajetória que foi desde deputado estadual a presidente do Congresso Nacional, passando pela Câmara dos Deputados e o governo de Mato Grosso. Atuou com firmeza ao lado do marido, teve papel relevante na assistência social durante os quatro anos do governo Fragelli e desenvolveu por muito tempo trabalhos de caridade em Aquidauana.
 
Em 2011 Dª Lourdes Fragelli foi homenageada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul em sessão solene comemorativa ao Dia da Mulher. A sessão Solene é realizada todos os anos e visa homenagear mulheres que se destacam na sociedade.

Cuiabana
“Nasci em Cuiabá, no dia 2 de junho de 1922. Eu sou cuiabana, prezo muito a minha origem de cuiabana, da minha família, de tudo, gosto muito de Cuiabá, acho os cuiabanos excepcionais, gente boa, alegre, comunicativa, caridosa, piedosa. As igrejas em Cuiabá vivem cheias. Eu gosto muito de Cuiabá”. 
 
Na verdade, Dona Lourdes era cuiabana por força das circunstâncias: sua mãe, Maria Constância, nas últimas semanas de gestação, visitava a família na Capital do então Mato Grosso uno. E o pai de Maria Constância, o governador Pedro Celestino, não deixou que a filha se lançasse na longa e cansativa viagem de retorno, pois estava “pesadona”, como descreve. “Naquele tempo era muito difícil a viagem. Vinha de barco até Corumbá, depois pegava o trem pra Aquidauana”. 
 
E assim nasceu a Lourdes Cuiabana, que com meses de vida fez a primeira viagem no colo da mãe, de regresso à fazenda da família em Aquidauana. Aos mais tarde, Cuiabá faria nascer a Lourdes militante política, ativista das causas sociais, uma novidade para a época. 
 
Internato
Herdeira de uma das famílias mais importantes do então Mato Grosso uno, Dona Lourdes Fragelli revelou uma história simples de menina recatada, afastada dos pais aos 11 anos de idade para estudar em colégio interno, da moça “sem mocidade” (pois saiu do colégio e logo se casou) e da companheira leal e amorosa que só tem uma queixa a fazer do marido: sua ausência logo nas vésperas de completar 70 anos de casados. “É uma pena ele ter morrido (José Fragelli faleceu no dia 30 de abril de 2010).”
 
Em seu calendário de oito décadas o tempo ganha outra dimensão: “Essa rodovia (a BR-262, entre Campo Grande e Aquidauana) é nova, coisa de agora. Pois foi o presidente Médici (1969-1974) que nos deu.” Até então a opção mais viável para viajar a Campo Grande era de trem. 
 
E foi o trem que levou a menina ao Rio de Janeiro, jornada de três dias. “Estudei o ginásio no colégio Sion, em Petrópolis, porque minha mãe havia estudado lá. (...) Tinha muita saudade da família porque fui criada na fazenda, tudo muito à vontade, Mas foi muito bom: eu aprendi a viver sozinha, determinar minha vida, saber fazer as coisas, amadureci mais cedo.” 
 
Dos 11 aos 18 anos ela só passava as férias escolares com a família em Aquidauana. “As férias de julho eram muito curtas, só 15 dias. E como eram três dias para vir, três dias para voltar, sobrava só uma semana. Então eu ia para o Rio de Janeiro, na casa de uma tia, e minha mãe ia me visitar.” No Rio de Janeiro fez o Colegial e estudou idiomas. “Naquela época moça não trabalhava. Eu lembro que a primeira moça que se formou num curso superior foi a Alzirinha Vargas, filha do Getúlio Vargas. Ela era advogada.”
 
Da educação que os pais lhe deram só tem a agradecer. “Eu era filha única, de mulher só eu em casa, mas não tinha assim muitos gostos, não. Meus pais me criaram na medida. E foi bom, porque eu casei cedo, e soube determinar a minha vida, acompanhar meu marido, fazer tudo como ele queria. Ajudei muito ele, isso eu ajudei, encho a boca e falo. Eu fui esposa, como diz o Evangelho, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.”
 
O casamento
Casou cedo, antes de completar 19 anos, no dia 15 de junho de 1941. Saiu do rigoroso internato de freiras já de casamento marcado e por isso diz: “não tive mocidade”. Mas a vida ao lado do marido é a parte que mais ocupa seu relato. “Meu tio Fernando Corrêa da Costa era presidente do Rádio Clube, na época ficava na esquina da Calógeras com a Avenida Afonso Pena, onde hoje é um banco grande. E nós fomos passar o Carnaval em Campo Grande e no baile eu conheci o Fragelli.” 
 
Fragelli já era promotor de Justiça, cargo que ocupou por 15 anos. No fim da ditadura Vargas ele se candidatou a deputado estadual, venceu a eleição e o casal se mudou para Cuiabá. Fragelli se reelegeu e também ocupou cargos no primeiro escalão do governo do tio, Fernando Corrêa da Costa. Depois foi eleito deputado federal e se mudaram para o Rio de Janeiro, onde ainda era sediado o governo federal. 
 
Findo o mandato na Câmara Federal, Fragelli não queria mais participar da vida pública, “achava que era muito dispendioso”. O casal retornou, então, a Aquidauana e se dedicou à fazenda. Nesta época construíram o casarão, era o início da ditadura militar. 
 
Primeira-dama
Fragelli voltaria à política pelas mãos de Emílio Garrastazu Médici, em 1970, sendo nomeado governador de Mato Grosso. O casal se muda novamente para Cuiabá. Em 74, findo o governo, retornam a Aquidauana e só em 1980 José Fragelli retoma a vida pública, elegendo-se senador por Mato Grosso do Sul. Teve a oportunidade de presidir o Senado num dos momentos mais importantes da história nacional, a transição democrática. Foi José Fragelli que, como presidente do Congresso Nacional, deu posse a José Sarney, então vice-presidente de Tancredo Neves. 
 
Com a vivacidade da mulher aquidauanense nascida em Cuiabá, Lourdes Fragelli acompanhou todos os passos do marido. Foi primeira-dama da nação por duas ocasiões, quando Fragelli substituía Sarney. Mas não são de Brasília suas mais vibrantes recordações; fala com mais paixão do trabalho que realizou em Cuiabá, como primeira-dama encarregada do Serviço de Obras Sociais. 
 
“O dinheiro vinha do esporte, acho que das entradas que cobravam para assistir aos jogos. Com esse dinheiro, por exemplo, no dia da criança eu mandava uma importância para as creches, no dia do idoso eu mandava para os asilos. E quando eles também tinham uma necessidade, me escreviam, e eu atendia na medida do possível.”

Doana Lourdes ficou conhecida em Aquidauana pelos trabalhos de Filantropia.

Fonte: Pedro neto com Informações de Familiares e da Assessoria de Imprensa


Deixe seu comentário