Jovem mostra resultado de suas produções na Expoaqui.
Nem só de leite e farinha vive a agricultura familiar, mas de toda boa produção que o manejo com a terra pode oferecer. Prova disso estava para quem quisesse ver no quiosque de orquídeas, montado dentro do estande da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), na 49ª ExpoAqui – Exposição Agropecuária de Aquidauana. O colorido das flores e a diversidade das espécies que foram expostas são garantidos pelas mãos do jovem, de 25 anos, Alisson Thiesen Biazussi.

Paixão essa que ele cultiva desde menino na sua cidade natal, Mundo Novo, município que fica a 476 km de Campo Grande. “O interesse começou há 14 anos. Lembro que meu pai, na época, era diretor de meio ambiente em Mundo Novo e comprou, no Paraná, orquídeas para colocar em locais públicos da cidade. Eu, então, com 11 anos, gostei da ideia, entreguei R$ 100,00 para ele e pedi que comprasse algumas para mim”, conta.

A ideia, segundo Alisson, era revender as plantas sem grandes compromissos. Uma brincadeira de criança que virou empreendedorismo de gente grande. “Só consegui comprar cinco, porque são plantas que não são muito baratas. Mas, comecei daí. Meu pai viu o meu interesse, incentivou e hoje eu trabalho com a ajuda da minha afilhada. Meu pai, minha mãe e até o meu irmão me ajudam em período de temporada, de janeiro a abril”, diz.

“Acredito que deu certo porque eu  gostava do que fazia. Naquele tempo de criança cheguei a  vender até dentro de um banco de Naviraí. Não podia, lógico. Mas, como as pessoas se encantavam com o trabalho de uma criança, eu acabei ganhando apoio do gerente. Hoje, vendo pouco lá. Tem outras floriculturas na cidade. Mas tenho minha clientela em Bonito, Mundo Novo, Aquidauana e região”, afirma.

 

Se no passado, Alisson chamava a atenção pela pouca idade. Hoje, o rapaz conquista o público pela cartela de orquídeas e a qualidade das plantas. De R$ 8,00 a R$ 85,00 é possível encontrar uma  orquídea que caiba dentro do bolso e gosto de qualquer consumidor. “É uma flor durável que chega a 15 ou 20 dias. Além disso, o cultivo da orquídea não exige grandes sacrifícios. A planta pode ficar até duas semanas sem água, ou seja, uma pessoa que mora sozinha pode ter uma e viajar tranquilamente”, explica.

E os benefícios de cultivo não se limitam aos cuidados, garante o profissional. “A orquídea é uma flor ornamental, tem sua beleza. Mas, bem mais que isso, ela também é utilizada para fins terapêuticos, principalmente, casos de depressão. Já vendi muitas orquídeas para mulheres, de meia idade, que por separação ou falecimento de um alguém da família, encontraram nos cuidados das plantas uma alternativa de tratamento”, afirma.

Seja pela beleza das flores ou a resistência da planta, tantas funcionalidades nas orquídeas renderam a Alisson outra função: palestrante. “Já dei cursos a convite da Embrapa, também já dei cursos para índios. Neste caso foi mais a caráter de preservação ambiental. Digo que eles têm o que eu não tenho, no momento, espaço”, garante.

Uma questão que o jovem acredita resolver em breve. “Comprei uma pequena propriedade rural já e, em breve, devo construir a minha casa e montar meu orquidário. Não posso só montar o orquidário, porque corro o risco de ser roubado. Já aconteceu isso na cidade. Imagina em um lugar mais afastado”, observa o jovem.

Mas mesmo com alguns incidentes de furtos, Alisson afirma que é satisfatório trabalhar com o que faz. “Gosto do que faço e tenho minha clientela. Digo que devo muito ao município de Naviraí. Lembro quando eu colocava as plantas em uma caixa de papelão e saia vendendo dentro e fora do banco da cidade. Hoje, tenho minha clientela e quero expandir mais e mais”.

Em março de 2017, por exemplo, Alisson já tem compromisso na agenda. “Para o ano que vem tenho uma encomenda, em Bonito, de um casamento. A noiva vai fazer lembrancinhas com as orquídeas e um pergolado de Vandas [espécie de orquídea] suspensas. Orquídea não é uma planta que floresce da noite para o dia. As mais precoces demoram três anos e, no caso, das Vandas são necessários 5 ou 8 anos. Então, estou preparando as plantas com os devidos cuidados”, justifica.

Zelo que ele mantém até mesmo no momento de adquirir novos exemplares. “Em Guaíra, tenho acesso a um dos maiores fornecedores do País. A proximidade de Mundo Novo com o Paraná me ajuda muito. Mas, fora isso, também tenho o cuidado de saber a procedência das flores. É crime revender orquídeas silvestres e a prática pode ameaçar as espécies”, destaca.

Esse cuidado todo já evitou, inclusive, que Alisson comprasse orquídeas clandestinas de um catarinense. “Fui abordado por um cara na internet. Ele me ofereceu 500 mudas por um bom preço. Chegou a levá-las a minha cidade, mas eu percebi que era clandestina só de olhar nas folhas. Se a planta tiver folhas do tempo em que estava na natureza, eu reconheço na hora. Recusei a oferta e só não denunciei porque o homem estava com toda a família no carro. Mas, fiz minhas recomendações a ele”, relembra.

O olhar clínico do rapaz quanto às orquídeas tem uma razão: pesquisa. “Estudo por conta. Sou engenheiro agrônomo de formação e estou fazendo mestrado em sustentabilidade rural. Porém, no Estado, não temos cursos específicos. Então, eu troco ideias com pessoas que tem o mesmo gosto por orquídeas. Talvez pela dificuldade de encontrar fontes a gente se ajuda”, observa.

“Meu próximo desafio é cultivar orquídeas sem fazer uso de agrotóxicos. Já uso muito pouco, quase nada mesmo. Mas, recentemente, me fizeram este desafio e eu aceitei. Ano que vem quero ficar um ano sem usar nenhum aditivo químico”, alega o jovem que usa os insumos químicos em casos de extrema necessidade. “Você precisa saber o que fazer quando aparece alguma doença e o surto de doença ocorre mais na época de florada”, diz.

No primeiro semestre é o período de safra. “Dias das Mães, Dia da Mulher e Dia dos Namorados são as datas de melhores vendas”, pontua. “Contudo, eu tenho boa clientela cativa desde o consumidor final até supermercados. As redes de mercado que vendo não sabem, mas eu busco dar preferência de compra para quem compra comigo. O bairrismo é forte em minha família, aprendi isso com meu pai. Na agricultura familiar, por exemplo, a gente tem que se fortalecer entre si”, reforça o rapaz.

Seja pela beleza e colorido das orquídeas ou pelo seu vanguardismo, Alisson revela ter planos mais audaciosos. “Estou cogitando em trabalhar com a ‘Rosa do Deserto’ e, também, quero ganhar o meu espaço no mercado de Campo Grande. Ainda não sei como farei isso. Na Capital, sei que já tem muitas pessoas que trabalham com isso, mas, tenho meus objetivos”, conclui.

Fonte: Aline Lira – Agraer


Deixe seu comentário